Um caso de superação dentro da Grande Rio

O aderecista Saimon Bezerra sobreviveu ao incêndio no barracão este ano, desfilou, e hoje integra a equipe de criação do Cahê Rodrigues

No dia 7 de fevereiro de 2011, a Acadêmicos do Grande Rio passou por um acontecimento incomum e trágico, o barracão da Escola, na cidade do samba, Gamboa, foi totalmente destruído pela força do fogo que atingiu o barracão das agremiações, União da Ilha, Portela e, na totalidade, o da Grande Rio. Perdemos 100% da estrutura do barracão e dos carros alegóricos. O episódio foi trágico, a Grande Rio deixou de levar para a Marquês de Sapucaí um carnaval, que todos diziam, campeão.

A tragédia passou, a comunidade se uniu e a Grande Rio fez um desfile mágico e emocionante. Sob forte chuva, levamos uma escola feliz, emocionada e unida, que mostrou a todo Brasil que quando há união qualquer desafio fica pequeno e possível de vencermos.

Diante de toda esta saga que a Escola de Duque de Caxias enfrentou, vimos um caso de superação dentro da Grande Rio, dentro do barracão atingido pelo fogo. O aderecista Saimon Bezerra, de 24 anos, estava dormindo no barracão quando começou o incêndio. Saimon lutou para salvar sua própria vida, pulou do quarto andar em cima de uma alegoria, sobreviveu à queda e a toda fumaça presente no local. Com leves escoriações, ele desfilou na Grande Rio em baixo de muita chuva, não se abalou com o acontecido e hoje faz parte da equipe de criação do carnavalesco da escola, Cahê Rodrigues.
“Além de ser um exemplo de superação, Saimon tem muita vontade de aprender. Pode ser que daqui pra frente surja um grande profissional de carnaval que vai nascer de uma história de superação.” – Contou orgulhoso, o carnavalesco Cahê.

Apaixonado por carnaval, Saimon, além de trabalhar no barracão, também está acompanhando Cahê Rodrigues nas inúmeras palestras de superação que o carnavalesco está participando este ano. Em um bate-papo com Saimon, ele nos deu mais detalhes do acontecido durante o incêndio e desta nova fase que o artista encara na equipe de criação do carnaval da Grande Rio. Confira esta conversa na íntegra:

Qual era sua função no antigo barracão da Grande Rio?
Eu era aderecista do abre alas, no atelier do André Cristal.

O que aconteceu com você no dia do incêndio no barracão?
No dia eu não estava na minha função no atelier do André, eu estava fazendo um extra pra um amigo meu, o Mauro que fazia as baianas. Nós trabalhamos até as 3 da manhã, fui tomar banho e na hora que eu fui dormir o Alan, um funcionário do atelier do Val, me ofereceu a chave de lá pra eu dormir mais tranqüilo, e eu fui dormir lá sozinho. Quando eu acordei, eu não sabia que estava tendo incêndio, a TV estava ligada e vi o incêndio na cidade do samba pela televisão e escutei o barulho do helicóptero sobrevoando. Quando fui tentar sair, a fumaça era tanta que eu não enxergava a porta, no tato eu fui até a porta, enfiei a chave na maçaneta, muito nervoso, e quebrei a chave dentro da fechadura, já ficando franco arrombei a porta e sai do atelier do Val. Depois que saí do atelier fui tentar descer pela escada e não consegui devida a tanta fumaça que vinha de dentro das escadas. Muito desesperado e nervoso, vi o único lugar que não tinha fogo, era o buraco no quarto andar, eu vi lá embaixo que era o carro do boi de mamão, era um carro que poderia amortecer a queda, com isso me pendurei na grade pra me tacar, escorreguei e cai em cima do carro. Foi difícil pra sair do carro, por causa da dor, o pior foi ter que descer do carro, porque uma perna minha entrou e a outra não, mas com muito esforço e vontade eu saí lá de cima e consegui descer e alcançar a porta de saída.

Você recebeu apoio da Escola?
Recebi sim, recebi apoio financeiro pra custear meus gastos médicos e a preocupação de todos comigo. No primeiro ensaio na quadra após o incêndio eu fui pra lá, o Cahê me apresentou a toda a diretoria da Escola e eu não tenho nada a reclamar, foi um acidente e graças a Deus estou bem. Eu quero é esquecer esse dia na minha vida. Mas a Grande Rio me apoiou sim e ainda está me apoiando.

E atualmente, qual sua função na Grande Rio?
Hoje eu faço alguns figurinos, comecei pintando alguns desenhos do Lucas Pinto,eu pintava, mesmo que para referência de cor, agora alguns eu pintei em definitivos e agora eu já to desenhando e pintando alguns croquis.

Após este acidente que pôs em risco sua vida, o que mudou em você?
A fé. Tudo o que eu penso em conquistar, antigamente eu nem rezava, orava, pedia ou agradecia, agora sempre agradeço a cada dia. O amor na minha família ficou muito mais forte, eu dou mais importância às pessoas, não sabemos o dia de amanhã, eu passei um sábado maravilhoso no ensaio da Grande Rio no Monte Líbano e no domingo teve essa coisa horrível. Hoje também não consigo dormir nem com a cafeteira ligada.

Como você define a palavra superação?
Acho que superar é você aprender a viver de uma forma que você não está acostumado, habituado a viver. No meu caso eu tento esquecer e tiro aquilo como lição, minha parte religiosa mudou muito, teve um resultado bom, depois da tempestade vem a bonança.

Agora que você trabalha na equipe de criação do carnavalesco, o que espera do carnaval da Grande Rio para 2012?
Está tudo muito bonito, muito inteligente. Estamos trabalhando pra emocionar o público, pra juntar nossa história de superação a tantas outras, tem coisas que só uma pessoa com a mente tão grandiosa como a do Cahê pode fazer algo assim.

O que você almeja pra sua vida profissional no futuro?
Pretendo continuar dentro do carnaval, faço faculdade de moda, mas o carnaval vai me abraçar vou me sentir melhor dentro do carnaval, quero juntar a moda ao carnaval.

O carnavalesco Cahê também nos informou que Saimon vai continuar trabalhando em sua equipe no carnaval 2012. A Grande Rio em 2012 trará o enredo ‘Eu acredito em você! E você?’ que contará histórias de superação. Nossa agremiação de Caxias vai ser a última Escola a desfilar na segunda-feira, fechando o carnaval carioca com chave de ouro.

Redação: Renan Calabri/ Yuri Soares

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